Nome:
Eduardo Silva
Cargo na escola: Diretor de carnaval
O
que faz um diretor de carnaval?
Um diretor de carnaval participa diretamente do desenvolvimento
do carnaval da escola desde a escolha do enredo até
o dia do desfile.
Como
o carnaval entrou na sua vida?
Bem... a Barroca foi fundada ao lado da minha casa, na
Rua Padre Machado e o saudoso Pé Rachado era meu
visinho, minha família freqüentava a escola.
Eu comecei a sair na bateria e já passei por vários
setores..
Sempre
na Barroca?
Para mim, a escola de samba é como se fosse um
time de futebol, nunca trocar a camisa e sempre dar continuidade
e ser sincero ao que você faz.
O ilustre Pé Rachado morava perto da sua
casa?
Sim! Inclusive a família dele ainda reside na Padre
Machado, na antiga vila.
Como
era o seu contato com o Pé Rachado?
Na época era bem próximo.
Ele
freqüentava a sua casa?
Praticamente ele era amigo da minha família, do
meu pai. A esposa dele ainda é viva, o filho dele,
o Binha, foi um dos primeiros mestres de bateria da Barroca,
ainda faz parte da nossa família, um sambista atuante
no carnaval de São Paulo e que continua prestando
serviços para nossa entidade.
Qual
o carnaval da Barroca mais marcante para você?
Para mim que desenvolve e participa, todos os carnavais
são marcantes. Principalmente quando a gente ganha,
como no caso do carnaval de 2002, quando fomos campeões
do grupo de acesso.
Por
quais setores da Barroca você já passou?
Já fui ritimista, tocando chocalho e tamborim,
já fui diretor de harmonia, diretor social, diretor
de carnaval e assessor da presidência.
Quando
você começou a tocar na bateria alguém
lhe ensinou ou você foi instintivo?
Quando a quadra era na Paulo Figueiredo, uma travessa
da Imigrantes, o mestre Binha ensinava a mim e às
pessoas que moravam na redondeza a tocar alguns instrumentos,
a princípio começávamos tocando instrumentos
que não comprometessem o andamento da bateria,
como o chocalho, por exemplo.
Você
ainda toca?
Ah, sim, toco alguma coisa! Mas há muitas passagens
que eu não acompanho mais.
Qual
é a melhor parte do carnaval?
A melhor parte e que eu estou acostumado a fazer é
o desenvolvimento do carnaval. É parecido com o
nascimento de uma criança, você começa
a cuidar e vai ter que criá-la até quando
crescer, ajudando a poder produzir frutos para ser vencedora.
Porque o nosso objetivo é ser sempre campeão!
Você
conhece o carnaval do Rio de Janeiro, qual sua opinião?
Durante cinco anos prestei serviços à Liga,
na gestão do Robson de Oliveira, eu era secretário,
e todo ano nós acompanhávamos os desfiles
de segunda-feira no Rio, para aprender com a estrutura
de lá e trazer para São Paulo. Há
muitas coisas que é feito no Rio que em São
Paulo ainda estamos atrasados. Em matéria de carnaval
a captação de recursos é bem melhor
do que aqui, são mais empresas que investem lá.
Ainda não temos tanta credibilidade como se tem
no Rio.
Qual
seria seu sonho?
Meu sonho seria ganhar na Mega Sena para fazer a Barroca
retornar ao Grupo Especial.
E
você acha que o que falta para a Barroca é
dinheiro?
A gente não tem a credibilidade no grupo de acesso
e assim fica difícil a captação de
recursos. Pela primeira vez a Liga fez uma parceria com
as escolas do Especial e Acesso e hoje temos um CD duplo,
que contém os sambas dos dois grupos. Em matéria
de Merchandising acho que vai melhorar bastante para nós
este ano. A data de lançamento foi dia 2 de dezembro,
no Dia nacional do Samba, na Rosas de Ouro. Para nós
foi um grande passo, este é um espaço que
queríamos alcançar, porque quem compra o
CD do especial vai poder escutar os sambas do especial
e do grupo de acesso também.
E
para onde vai todo o dinheiro arrecadado com a vendagem
dos CDs?
Tudo será dividido entre as escolas dos grupos
do especial e acesso.
O
que a Barroca Zona Sul representa pra você?
Pra mim a Barroca representa tudo. Eu vivo o carnaval,
o telefone que não pára!
Como
dividir os momentos entre família e Barroca?
Minha família sempre divide os bons e maus momentos
que a gente passa, acho que isso é uma forma de
colaboração e participação
de todos que ajudam de forma direta ou indiretamente a
nossa escola.
Qual
é a idade mínima para fazer parte da ala
mirim?
A partir de 7 anos de idade, desde que os pais autorizem
o desfile da criança perante ao juizado de menores.
Até
onde você pretende chegar, almeja um dia ser presidente?
Estou na escola desde a fundação, 7/8/74,
e pretendo ficar aqui até quando Deus permitir.
Não almejo ser presidente, é muita dor de
cabeça, presidente hoje em dia, para uma escola
de samba, tem que ter dinheiro. Eu prefiro cuidar da parte
técnica.
Se
você fosse carnavalesco qual seria o tema que colocaria
na avenida?
Os melhores temas para a Barroca sempre foram os enredos
afros, que se observarmos sempre tivemos bons resultados.
E
se você tivesse que inventar um enredo que ainda
não saiu, qual seria?
A gente tem a idéia de lançar um enredo
em homenagem ao Quilombo da Zona Sul, um bairro que existiu
aqui na Zona Sul e era como se fosse uma nação.
Hoje há poucas pessoas que conhecem essa história.
Você
tem muitos materiais de escolas de samba em sua casa?
Claro! Tenho muitas fotos, fitas e DVDs. Na minha casa
seria mais um arquivo. Tenho material desde o início
do trabalho no Barracão até o desfile. Pego
fotos de quem tira na avenida e vou guardando para documentar
tudo.
De
diversas escolas ou só da Barroca?
Não me interesso por material de outras entidades,
não estou desmerecendo nenhuma, mas eu procuro
guardar mais o que é patrimônio da Barroca.
Desde o início de um carnaval até
a data do desfile, qual é a parte mais difícil?
A parte mais difícil é levar as alegorias
para o sambódromo, é como se fosse uma gravidez
de “um ano”. Durante esse período você
vê um carro sair do ferro, crescendo, e depois ser
apresentado na avenida! Tem que ter muito cuidado mesmo
para que as alegorias cheguem intactas e não causem
nenhum dano e nem prejudique o desfile.
Já
aconteceu alguma coisa desesperadora no transporte dos
carros?
Na época em que o Barracão era aqui na própria
quadra (Av. Prof. Abraão de Moraes), transportávamos
os carros daqui para o Pólo Cultural do Anhembi
via Marginal Pinheiros, Bandeirantes, aconteciam diversos
problemas. Uma vez, no carnaval de 92, no decorrer desse
trajeto, um rapaz caiu do carro e quebrou a perna e o
braço. Depois com a captação de recursos
e apoio de vereadores, nós conseguimos aquele espaço
atual no Bom Retiro, na Rua General Flores, 800, perto
do sambódromo. Ano passado um dos carros se chocou
com um poste e deu um curto circuito e quase caiu um fio
de alta tensão em cima da gente. O fio ficou chicoteando
no chão, nós saímos correndo, porque
se aquele fio pega na gente não estaríamos
aqui para contar essa história.
Você
se lembra de algum fato engraçado durante esses
anos que você esteve na Barroca?
Um dia eu e mais alguns dirigentes estávamos aqui
na quadra liberando os últimos ônibus para
sair para o desfile, nós sempre éramos os
últimos a sair para verificar se não falta
nenhum componente. O filho do Borjão, na época
tinha uns três anos de idade, quando chegamos na
Avenida percebemos que havíamos esquecido o moleque
dentro da quadra. (risos)
E aí... voltaram desesperados ou primeiro
desfilaram e depois pegaram o menino? (risos)
Ah não, tivemos que voltar, né?! (risos)
O
que a Barroca tem que as outras não têm?
O nome Faculdade do Samba! No mundo do samba somos tratados
como celeiros de bamba, no passado vários sambistas
que hoje fazem parte do carnaval de São Paulo dos
grupos do acesso e especial passaram por aqui e tiveram
uma participação com a entidade, por exemplo,
Tornado (in memorian), Mestre Fubá (in memorian),
Gabi, Ednei, Lobão, Eumar Meirelles, Agnaldo Amaral,
Ivan do Arte Final, Zé Maria, Zé Carlinhos,
hoje intérprete que mais ganha sambas na Vai-Vai,
inclusive foi ele, que também é um dos fundadores
da Barroca, quem criou o logo da Barroca, o desenho e
a criação da arte.
Qual
é a idéia do logo?
A idéia inicial do logo é mostrar uma criança
de fralda iniciando a trajetória no samba com um
tamborim na mão, depois ela cresceria, assim como
a Barroca cresceu.
Dentre
os diversos projetos que a Barroca oferece para a comunidade,
comente alguns deles?
Temos o Acessa São Paulo, gerado a partir de uma
parceira entre a Barroca e o Governo do Estado de São
Paulo que doou 10 computadores para crianças carentes
e para a comunidade local que podem utilizá-los
gratuitamente, muitos montam seus currículos para
enviar para empresas, além disso, tem acesso à
internet. Há duas monitoras que fazem parte da
comunidade que cuidam do espaço.
Outro
projeto da Prefeitura que temos na quadra é o chamado
Viva Leite, que consiste na distribuição
de leite para a comunidade carente e a quem necessita.
Estamos
tentando introduzir um consultório odontológico,
inclusive já está montado, já temos
cadeira, alguns equipamentos e até dentista, agora
estamos na fase de captação de recursos
para poder dar andamento.
Quem poderá usufruir deste projeto, precisa fazer
alguma inscrição?
Nós estamos pensando em criar uma taxa mensal simbólica,
aproximadamente R$ 5,00, para a pessoa ser associada e
fazer as consultas dentárias.
Como
se fosse um convênio?
Isso! Estamos próximos às regiões
muito carentes e se temos condições de ajudar
a gente ajuda. Quando necessário vamos atrás
de vereadores para poder pedir cadeiras de rodas, cestas
básicas. A Barroca Zona Sul também é
uma instituição social! Como esse espaço
é cedido pela prefeitura devemos também
ajudar as famílias de nossa comunidade.
Quer
dizer mais alguma coisa para finalizar?
Digo que a Barroca Zona Sul não tem dono. Hoje
sou diretor, amanhã será a minha filha ou
a sua. O nosso amor pela escola passa de geração
em geração, por isso ela é de todos
nós. Enfim é de todos aqueles que querem
colaborar para o progresso de nossa entidade.